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ASSOCIAÇÃO CRICIUMENSE DE APOIO A SAÚDE MENTAL

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O despertar da sombra

Há um mês assistimos diariamente as reações da população nas ruas do nosso país. Dizem que o povo brasileiro despertou. Mas será que as pessoas despertaram mesmo ou apenas foram contagiadas pela coletividade? Quem acordou? De quem são estas vozes? Ouvimos diferentes gritos de guerra, movimentos com causa e sem causa, reivindicações diversas, denúncias, protestos de vários segmentos sociais; e a esta multiplicidade corresponde a diversidade psicológica que constitui uma sociedade.

Analisando este fenômeno social à luz da psicologia, esta onda de protestos revelam mais do que uma crise política e econômica. De um lado os pacifistas, do outro os vândalos, ambos representando os dois lados da mesma moeda, a luta entre o bem e o mal, conflito inerente a qualquer ser humano.

Sim, todos temos os dois lados, porém o lado “mal” costumamos projetar em algo ou em alguém fora de nós acreditando que não nos pertence. Atitudes que julgamos e condenamos nos outros são aspectos de nós mesmos que geralmente rejeitamos. Nosso lado agressivo, desonesto, injusto, egoísta, individualista, corrupto, preconceituoso, covarde, ganancioso, consumista, materialista, nossas imperfeições aparecem no inimigo que mora ao lado.

Há aqueles que servem perfeitamente como “ganchos” para estas projeções, como os políticos corruptos, os “ladrões”, criminosos; assim como, também, as pessoas públicas, personalidades famosas, carregam esta sombra coletiva negativa.

A sombra é aquela dimensão da personalidade que é rejeitada, reprimida ou desconhecida, abrangendo qualidades tanto negativas quanto positivas. Porém, quando não reconhecida e integrada pela consciência ela parece em forma de sintomas ou desajustes comportamentais, podendo se manifestar tanto individualmente como coletivamente.

Será esta reação popular uma reação da sombra coletiva que estava adormecida por tanto tempo e ao acordar aparece de uma forma gigante, considerando que quanto mais reprimida maior a sua força na busca de se tornar consciente?

Quanto mais negligenciamos nossa sombra tanto pessoal como a nível coletivo maior é a força que ela exerce sobre nós. Quanto mais evitamos enfrentar nossos problemas maiores eles se tornam. Aquilo a que se resiste persiste. Quando não ouvimos o grito da nossa própria sombra somos afetados por ela.

Será que as pessoas realmente acordaram dispostas a olharem para a sua própria sombra, a colocarem ordem na sua própria casa para poderem contribuir com a ordem coletiva? Ou será que estão ainda dormindo, saindo às ruas como sonâmbulos, apenas repetindo os gritos de guerra sem ter consciência do que realmente estão dizendo e fazendo? O que cada um está fazendo efetivamente, na ua própria casa, no seu bairro, no seu grupo familiar e social?

Esta reflexão não é uma crítica social, ao contrário, devemos apoiar estas manifestações, as causas são legítimas, porém precisamos ser coerentes nas nossas atitudes, não podemos defender causas que não praticamos. A luta entre o bem e o mal deve ser travada tanto fora quanto dentro de cada um de nós.  Nosso maior inimigo pode estar no nosso interior, portanto, precisamos rever nossos próprios valores e ações antes de julgarmos o vizinho. Somente quando confrontamos nossa sombra pessoal podemos enfrentar a sombra do mundo.

A consciência ética de um povo se desenvolve a partir dos seus indivíduos. O mal provêm desta inconsciência, e só através do conhecimento mais profundo que começa por si-mesmo é possível lutar contra as causas e consequências da falta de ética que afeta a nossa sociedade.

ANITA MUSSI – Psicóloga – CRP-12/1185 Membro fundadora da CERES - Associação Criciumense de Apoio à Saúde Mental.

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